estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 2, (jul. 2021), p. 34-56
Abrindo a caixa de ferramentas foucaultiana:
delineando a governamentalidade global
enquanto instrumento analítico das
Relações Internacionais
Opening Foucault’s toolbox: delineating global
governmentality as an analytical instrument for
International Relations
1. Mestra em Ciência Política pela
Abriendo la caja de herramientas de Foucault: delineando
Universidade Federal do Paraná (UFPR),
é Professora de Relações Internacio-
la gubernamentalidad global como un instrumento
nais no Centro Universitário Curitiba
(UNICURITIBA, Brasil), e atualmente
analítico para las Relaciones Internacionales
é Doutoranda em Ciência Política no
Programa de Pós-Graduação em Ciência
Política da Universidade Federal do
Paraná (PPGCP-UFPR). É integrante do
Natali Hoff1
Núcleo de Estudos para a Paz (NEP) da
Ramon Blanco2
Unila e do Núcleo de Pesquisa em Re-
lações Internacionais (NEPRI) da UFPR.
Contato: natali.hoff@gmail.com. ORCID:
https://orcid.org/0000-0003-2017-4940.
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2021v9.n2.p34
2. Doutor em Relações Internacio-
Recebido em: 28 de abril de 2020
nais pela Universidade de Coimbra,
Aceito em: 23 de agosto de 2020
é Professor Adjunto no curso de
Relações Internacionais e Integração
da Universidade Federal da Integração
Latino-Americana (UNILA). Na UNILA,
coordena o Núcleo de Estudos para a
Resumo
Paz (NEP) e a Cátedra de Estudos para
O presente artigo apresenta e delineia as contribuições do estudo sobre a gover-
a Paz (CEPAZ). É, também, Professor
Permanente no Programa de Pós-Gra-
namentalidade global para a compreensão do ordenamento da política interna-
duação em Relações Internacionais da
cional ao dar ênfase para as relações existentes entre as racionalidades políticas
mesma Universidade (PPGRI-UNILA)
e práticas de governo presentes no espaço internacional. Tendo em vista esse
e no Programa de Pós-Graduação em
objetivo, essa pesquisa se desenvolve por meio da uma abordagem qualitativa
Ciência Política da Universidade Federal
por meio da Análise Bibliográfica, de modo que possa ser observado como a
do Paraná (PPGCP-UFPR). O autor agra-
ideia de governamentalidade global possibilita um entendimento mais alargado
dece o auxílio financeiro proporcionado
sobre os processos, práticas, instituições e racionalidades políticas presentes no
às suas pesquisas pela Pró-Reitoria de
Pesquisa e Pós-Graduação da UNILA
cenário internacional. Entende-se que a ideia de governamentalidade aplicada
sob os seguintes instrumentos finan-
à análise do espaço internacional possibilita o seu estudo como um domínio
ceiros: PRPPG No 109/2017, PRPPG No
socialmente incorporado, composto por práticas e racionalidades orientadas
58/2018, PRPPG No 110/2018, PRPPG
para objetivos específicos. Por conseguinte, a compreensão da organização da
No 149/2018, PRPPG No 154/2018,
política internacional perpassa pela observação das mentalidades, das práticas e
PRPPG No 25/2019, PRPPG No 80/2019,
dos mecanismos ordenadores que a compõem e incidem sobre os seus atores.
PRPPG No 66/2020, PRPPG No 104/2020
e PRPPG No 105/2020. É autor de Peace
Palavras-chave: Governamentalidade. Governamentalidade Global. Política
as Government: The Will to Normalize
Internacional.
Timor-Leste. London: Lexington Books,
2020. Contato: ramon.blanco@unila.
edu.br. ORCID: https://orcid.org/0000-
Abstract
0003-0330-6235.
This article presents and outlines the contributions of global governmentality
studies to the understanding of the international political order by emphasizing
34
Natali Hoff, Ramon Blanco Abrindo a caixa de ferramentas foucaultana: delineando a governamentalidade
global enquanto instrumento analítco das Relações Internacionais
the existing relations between political rationalities and government practices
present in the international space. With this objective in mind, this research is
developed through a qualitative approach, namely the Bibliographic Analysis,
so that it can be observed how the idea of global governmentality enables a
broader understanding of the processes, practices, institutions and political
rationalities present on the international scene. It is understood that the idea of
governmentality, when applied to the analysis of the international space, allows
its study as a socially incorporated domain, composed of practices and rationali-
ties oriented towards specific objectives. Consequently, the understanding of the
organization of international politics permeates the observation of the mentali-
ties, practices and ordering mechanisms that compose it and affect its actors.
Keywords: Governmentality. Global Governmentality. International Politics.
Resumen
Este artículo presenta y esboza las contribuciones del estudio sobre la guber-
namentalidad global a la comprensión del ordenamiento de la política interna-
cional, enfatizando las relaciones existentes entre las racionalidades políticas y
las prácticas gubernamentales presentes en el espacio internacional. Con este
objetivo en mente, esta investigación se desarrolla a través de un abordaje cuali-
tativo a través del Análisis Bibliográfico, de manera que se pueda observar cómo
la idea de gubernamentalidad global posibilita una comprensión más amplia
de los procesos, prácticas, instituciones y racionalidades políticas presentes en
la escena internacional. Se entiende que la idea de gubernamentalidad aplica-
da al análisis del espacio internacional permite su estudio como un dominio
socialmente incorporado, compuesto por prácticas y racionalidades orientadas
a objetivos específicos. En consecuencia, la comprensión de la organización de
la política internacional pasa por la observación de las mentalidades, prácticas y
mecanismos ordenadores que la componen y afectan a sus actores.
Palabras clave: Gubernamentalidad. Gubernamentalidad Global. Politica Inter-
nacional.
Introdução
O presente artigo analisa e delineia as potencialidades advindas
da operacionalização da noção de governamentalidade global para uma
melhor problematização, sobretudo crítica, da política internacional. Por
conseguinte, o objetivo central desse trabalho é demonstrar como as con-
tribuições teóricas e metodológicas do filósofo francês Michel Foucault,
em especial o conceito de governamentalidade, possibilitam uma leitura
mais apurada sobre as relações de poder e as redes de governança presen-
tes na política internacional. O caráter crítico presente na obra de Fou-
cault fez com que ele se tornasse uma das principais influências de uma
abordagem pós-estruturalista nas Relações Internacionais3
(ASHLEY,
3. Nesse trabalho será empregado o
termo Relações Internacionais (com
1987, 1990; BARTELSON, 1995; DERIAN, 1987; GEORGE, 1994; SHAPI-
maiúscula) referindo-se a disciplina e o
RO, 1997, 1999; WALKER, 1993; WEBER, 1995) e para o questionamento
termo relações internacionais (com mi-
núscula) para se direcionar ao conjunto
dos pressupostos tradicionais da disciplina, sejam eles realistas ou liberais
de processos, interações e fenômenos
(PAOLINI, 1993, p. 99). De forma geral, os pressupostos tradicionais das
observados no espaço internacional e
Relações Internacionais se direcionam, por um lado, a analisar os atribu-
estudados pela disciplina.
tos e os comportamentos dos Estados no sistema internacional (MOR-
GENTHAU, 1946, p. 38) e, por outro lado, buscam compreender como
a estrutura anárquica e competitiva desse sistema condiciona e limita a
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 2, (jul. 2021), p. 34-56
atuação dos Estados (WALTZ, 1979, p. 26). Dessa maneira, as discussões
que compõem o mainstream da disciplina concentram-se, essencialmente,
na investigação sobre as disputas pelo poder entre os Estados no sistema
internacional e sobre a busca pela sobrevivência dentro desse sistema.
Assim, o referencial teórico foucaultiano, de um modo geral, é frequente-
mente empregado nas Relações Internacionais para que se possa reinter-
pretar e ressignificar as principais questões presentes em discussões sobre
os fenômenos internacionais.
Embora o pensamento de Michel Foucault tenha estado presente
nas Relações Internacionais há algum tempo, a aplicação da noção de go-
vernamentalidade para a compreensão dos processos e das práticas polí-
ticas internacionais constitui-se em um desenvolvimento relativamente
recente na área (JOSEPH, 2010, p. 224). O conceito de governamentalida-
de foi empregado por Foucault para descrever a o modo por meio do qual
se pensa sobre o governo (FOUCAULT, 1991). Cabe ressaltar que o estudo
sobre a governamentalidade explora o governo - entendido em termos
foucaultianos não como algo assente nas estruturas institucionais, mas
sim como ‘a conduta da conduta’4 - para além de seus aspectos institucio-
4. Foucault compreende o governo como
a ‘conduta da conduta’, uma vez que
nais, e investiga como as dimensões discursivas do poder se manifestam
para ele o governo envolve a tentativa
nos imaginários políticos e nas racionalidades políticas que orientam a
de moldar e conduzir os comportamen-
tos dos indivíduos de acordo com um fim
práxis (ZANOTTI, 2013, p. 238). Nesse sentido, a noção de governamen-
específico (FOUCAULT, 2008, p. 257).
talidade remete imediatamente à ideia de racionalidade do governo e de-
lineia as a lógica, os cálculos e a expertise envolvidos no ato de governar.
Logo, a utilização desse conceito para o estudo dos fenômenos sociais (e
internacionais) possibilita desnaturalizar as práticas políticas a partir de
uma leitura crítica sobre os regimes de pensamento que as conformam.
Assim, a governamentalidade global estuda como se desenham as
conexões entre os instrumentos de conhecimento e as práticas governa-
mentais vigentes, bem como as consequências não intencionais desses
esforços. Isso é possível porque os estudos sobre a conformação de uma
governamentalidade focam na identificação das ‘mentalidades’ de gover-
no presentes nas diferentes formas de se governar (NEUMANN; SEN-
DING, 2010, p. 9). Dessa maneira, a governamentalidade conecta a prática
do governo, de conduzir condutas, às formas sistemáticas de pensamento
e conhecimento que o integram e o tornam operacional. Portanto, pen-
sar sobre a governamentalidade em âmbito global permite, por exemplo,
problematizar como as estruturas de ‘governança’, recorrentemente re-
tratadas como ‘democráticas’ e benevolentes, podem conformar crista-
lizadas estruturas de poder. Nesse sentido, a governamentalidade não se
refere apenas sobre como as instituições se comportam. Mais do que isso,
constitui-se em uma abordagem preocupada com o arcabouço discursivo
que dá sustentação ao exercício do governo no espaço internacional.
Desse modo, este artigo discute como a noção de governamentali-
dade, quando aplicada às Relações Internacionais, possibilita a investiga-
ção sobre as racionalidades políticas presentes no cenário internacional e
sobre como estas moldam e ordenam as instituições, os atores e as práticas
políticas internacionais de acordo com uma mentalidade de governo espe-
cífica. Tendo isso em conta, o argumento central desse artigo é que a in-
vestigação sobre a conformação e sobre os efeitos da governamentalidade
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Natali Hoff, Ramon Blanco Abrindo a caixa de ferramentas foucaultana: delineando a governamentalidade
global enquanto instrumento analítco das Relações Internacionais
global é essencial para a compreensão mais refinada e acurada do ordena-
mento da política internacional contemporânea, sobretudo por possibilitar
a análise dos regimes de pensamento que dão forma e sustentação a mes-
ma. De modo a desenvolver a sua análise, o presente artigo está dividido
em duas seções. Na primeira seção discute-se parte das contribuições do
pensamento de Michel Foucault para as Relações Internacionais, eviden-
ciando como as contribuições teóricas e conceituais permitem a amplia-
ção das abordagens sobre os fenômenos internacionais. Na segunda seção,
discorre-se especificamente sobre a noção de governamentalidade global,
concedendo destaque a importância das análises sobre as racionalidades
políticas para a compreensão do ordenamento da política internacional.
Nesse sentido, delineia-se algumas das potencialidades da utilização do
conceito de governamentalidade para se pensar a política internacional.
Michel Foucault e as Relações Internacionais: da crítica à pluralização
de análises sobre o internacional
Para que se possa refletir sobre como a noção de governamentali-
dade global colabora para uma problematização mais adequada, e sobre-
tudo crítica, da política internacional, é preciso, anteriormente, delinear
como o pensamento de Michel Foucault contribui para a ampliação das
leituras e abordagens teóricas das Relações Internacionais. Nesse sentido,
essa seção apresenta e delineia algumas como as contribuições teóricas
e conceituais de Foucault possibilitam, por um lado, uma compreensão
mais apurada sobre as relações de poder no cenário internacional e, por
outro lado, a problematização dos processos de produção e reprodução
do conhecimento nas disciplina de Relações Internacionais. Desse modo,
discute-se como as leituras foucaultianas das Relações Internacionais têm
o potencial de iluminar as conexões existentes entre conhecimento e po-
der, ou seja, entre os conjuntos de verdades e as práticas políticas inter-
nacionais. Isso é possível porque a obra de Michel Foucault, em grande
medida, está pautada na preocupação do autor com as relações existentes
entre a produção dos saberes e o exercício cotidiano do poder. Tal preo-
cupação, com os impactos práticos do conhecimento, fica evidente ao se
refletir sobre os tradicionais métodos foucaultianos - o método arqueo-
lógico5 e o método genealógico6. Esses dois métodos, quando aplicados
5. O método arqueológico foucaultiano
busca investigar as práticas discursivas,
ao estudo das Relações Internacionais, abarcam um conjunto de técnicas
procurando iluminar o processo por
analíticas que possibilitam o questionamento a respeito da constituição
meio do qual se dá a constituição dos
saberes (FOUCAULT, 2002, p. 239).
histórica dos conjuntos de verdades e de práticas no espaço internacional.
Os métodos arqueológico e genealógico foucaultianos são baseados na
6. O método genealógico se refere a
análise das práticas discursivas e na problematização sobre o exercício
“constituição de um saber histórico
do poder, de modo que passaram a ser incorporados como uma forma de
sobre as lutas e a análise sobre a utili-
se compreender o espaço internacional e a própria produção de conhe-
zação deste saber nas técnicas de poder
existentes na atualidade” (FOUCAULT,
cimento na área (SELBY, 2007, p. 236). O foco no exercício cotidiano do
1979, p. 171).
poder e na sua vinculação com a reprodução do conhecimento por meio
da arqueologia e da genealogia ilumina o processo por meio do qual o
internacional se conforma como um objeto de pensamento.
Dessa forma, o entendimento sobre a conformação de uma pers-
pectiva analítica, preocupada com uma governamentalidade em âmbito
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 2, (jul. 2021), p. 34-56
global, perpassa por entender como os conceitos foucaultianos fomentam
o questionamento das bases ontológicas e epistemológicas das Relações
Internacionais. A palavra ontologia tem sua origem das palavras gregas
ontas (ente) e logos (teoria, discurso, palavra), significando, ao pé da letra,
‘teoria dos entes’ (CASTRO, 2008, p. 9). Assim, a ontologia se refere ao
ramo da filosofia vinculado à metafísica e preocupado com as caracterís-
ticas mais gerais do ‘ser’ (CASTRO, 2008, p. 9). A ontologia de uma dada
área do saber, ao estabelecer quais são as características mais básicas do
ser, determina a maneira por meio da qual a realidade é apreendida e
explicada. Por conseguinte, a ontologia precede a investigação científica,
uma vez que envolve o modo como o mundo é assimilado pelo pesquisa-
dor e convertido em uma linguagem capaz de exprimir a sua complexi-
dade (SILVA, 2005, p. 257). Os pressupostos ontológicos de uma disciplina
estabelecem, para além dos atores, das coisas e dos fenômenos que po-
derão ser estudados, quais sãos os elementos que poderão ser ignorados
e marginalizados em uma pesquisa científica. Portanto, a ontologia está
vinculada à construção de um conjunto de concepções e verdades sobre
o mundo, que ao hierarquizar os sujeitos e os fenômenos sociais a serem
estudados, termina por legitimar as relações de poder.
No caso das Relações Internacional, as ontologias da disciplina de-
lineiam quais são os ‘atores titulares’ da política internacional, ordenan-
do-os de acordo com as suas interações no que se denomina como ‘siste-
ma internacional’ (CASTRO, 2012, p. 428). Desde o início da disciplina, o
Estado é classificado como o principal ator da relações internacionais, de
modo que a compreensão das dinâmicas e dos fenômenos internacionais
passa, diretamente, pela análise sobre como os Estados se comportam
e interagem nos fenômenos internacionais. A teoria realista é a grande
precursora desse tipo de entendimento e durante os três primeiros de-
7. A evolução das discussões sobre as
bates7 das Relações Internacionais não houve grandes questionamentos
teorias das Relações Internacionais
à centralidade do Estado na política Internacional. De uma forma geral,
pode ser descrita a partir de quatro
esses debates estavam mais preocupados em consolidar as Relações In-
grandes debates: i) o primeiro debate se
deu entre realismo clássico e o liberalis-
ternacionais enquanto campo científico e, para isso, divergiam quanto
mo clássico entorno da discussão sobre
aos princípios ordenadores do comportamento dos Estados no sistema
guerra e paz; ii) o segundo debate foi
entre tradicionalistas e behavioristas e
internacional.
versava sobre a metodologia da área; iii)
Nesse sentido, ao se observar a conceitualização do Estado, nas teo-
o terceiro debate - também chamado de
interparadigmático - englobou as dis-
rias neorrealista e neoliberal, destacam-se algumas diferenças na forma
cussões entre neorrealismo, neolibera-
como ele é abordado por cada uma delas. No entanto, ambas as correntes
lismo e neomarxismo e se direcionou a
teóricas partem da ideia de que o Estado é o ator legítimo das relações
questionar as características do sistema
internacionais e, portanto, merecedor de destaque nos estudos sobre a
internacional; iv) o quarto debate, com
caráter metateórico, se deu entre racio-
política internacional. Para o realismo o Estado configura-se em um ator
nalistas e reflexivistas e versa sobre o
homogêneo, racional e centrado na sua própria segurança e/ou sobrevi-
questionamento das bases ontológicas
vência diante do sistema internacional anárquico (JERVIS, 1998; MEAR-
e epistemológicas da disciplina (MES-
SARI e NOGUEIRA, 2005).
SHEIMER, 2001; WALTZ, 1979;). Assim, o Estado é entendido como um
ator coeso e unitário, que se comporta de acordo com os desafios im-
postos pela estrutura internacional e com as suas próprias necessidades.
Como a estrutura do sistema é anárquica, a principal necessidade do Es-
tado é a garantia da sua própria sobrevivência diante das ameaças exter-
nas (WALTZ, 1979). A visão da teoria liberal sobre o Estado é um pouco
diferente, uma vez que está muito mais preocupada com os reflexos das
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Natali Hoff, Ramon Blanco Abrindo a caixa de ferramentas foucaultana: delineando a governamentalidade
global enquanto instrumento analítco das Relações Internacionais
instituições e dos agentes domésticos para atuação deste no cenário in-
ternacional. Para os liberais, o comportamento do Estado nas relações in-
ternacionais é o resultado da disputa de interesses entre os grupos sociais
que o compõem (MORAVCSIK, 2008). A abordagem liberal não entende
o Estado como um ator homogêneo e unitário, prestando mais atenção
à aspectos domésticos. Por conseguinte, para os liberais a atuação do
Estado é central na política internacional, ao aglutinar os interesses de
diferentes grupos sociais. Embora, cada vez mais novos atores ocupam
uma posição de destaque na esfera internacional - como organizações
internacionais, empresas transnacionais, a sociedade civil e até mesmo o
indivíduo.
Tendo em conta o exposto acima, é possível observar que a ma-
neira como se estuda e se problematiza ‘o internacional’ ainda está forte-
mente embasada em uma leitura estadocêntrica, que tende a invisibilizar
o papel das ideias, das identidades, do conhecimento e dos atores consi-
derados periféricos. Essa tendência é fortalecida pelo fato de que, tanto
o neoliberalismo como o neorrealismo, estão conectados a um matriz
epistemológica racionalista - que entende que a teorização das Relações
Internacionais deve ser realizada a partir de um padrão universal de co-
nhecimento científico (CASTRO, 2012, p. 297). Em consequência, as bases
epistemológicas das teorias que compõem o mainstream das Relações In-
ternacionais estão vinculadas ao que, Max Horkheimer e Theodor Ador-
no (1985), denominam de teorias tradicionais. Essas últimas defendem
que as ciências humanas devem seguir os padrões analíticos das ciências
naturais, concedendo prioridade à neutralidade científica em detrimen-
to do questionamento sobre a complexidade do mundo social. Esse tipo
de entendimento, em última instância, concede primazia às perspectivas
teóricas do tipo “problem solving” (COX, 1981, p. 208), que defendem uma
abordagem empirista do mundo cujo objetivo central é responder a um
problema particular em um sistema social. Dentro desse enquadramento,
o lugar da teoria é apenas descrever e explicar a realidade, não cabendo a
ela uma função crítica e a transformadora.
Em contrapartida às abordagens racionalistas, a partir da década de
1980, teorias críticas passam a ganhar cada vez mais espaço na disciplina
de Relações Internacionais - como as abordagens construtivistas, da teo-
ria crítica, pós-estruturalistas, de gênero e o pensamento decolonial e pós-
-colonial. Essas teorias críticas, se direcionam a questionar as fundações
epistemológicas e ontológicas das Relações Internacionais. As suas leituras
sobre o ‘internacional’ evidenciam os efeitos das relações de poder para a
produção do conhecimento na área, bem como os impactos das assime-
trias políticas e econômicas para o funcionamento da política internacio-
nal. Em essência, elas questionam as estruturas de poder desde múltiplas
perspectivas. O referencial teórico foucaultiano é, justamente, empregado
nas Relações Internacionais com esse sentido crítico e questionador. A par-
tir das contribuições de Foucault é possível iluminar os processos de for-
mação e de consolidação dos padrões discursivos que moldam e orientam
o exercício do poder na esfera internacional - incluindo desde a problema-
tização sobre os conceitos e teorias das Relações Internacionais à análises
sobre a prática diplomática, a atuação das Organizações Internacionais, o
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 2, (jul. 2021), p. 34-56
direito internacional e a interação entre os Estados (JOSEPH, 2010, p. 2).
Assim, o caráter crítico do trabalho desenvolvido por Foucault permite
que a aplicação das suas ideias nas Relações Internacionais se distancie das
concepções dominantes da área, iluminando padrões de comportamento
usualmente marginalizados pelas análises clássicas da disciplina.
Nesse sentido, observando atentamente, é bastante evidente que o
elemento que mais aproxima Foucault das Relações Internacionais é a sua
concepção de poder dissonante das leituras mais tradicionais, sobretudo
na área, sobre a questão. Foucault compreende o poder a partir de uma
leitura positiva e produtiva do seu exercício, focando-se assim nas condu-
tas e comportamentos produzidos, sobretudo no que toca à construção de
subjetividades, do mesmo. Esta leitura afasta-se das visões convencionais
da teoria política, normalmente negativa e repressiva, que frequentemen-
te associam o poder às ideias de “posse” e de “força”. Não por acaso, nes-
sas abordagens tradicionais, o poder costuma ser: (1) entendido como algo
que pode ser possuído por um agente; e (2) utilizado para a impor vontade
de um agente poderoso a outro agente desprovido de poder (HAYWARD,
2000, p. 38). Não raramente, é esse entendimento mais tradicional acer-
ca do poder que normalmente possui o privilégio analítico na área das
Relações Internacionais8. Consequentemente, a política internacional é
8. Para ler mais sobre esse tipo de abor-
dagem, pode-se ver: Waltz, Kenneth.
frequentemente problematizada a partir de conceitos que versam sobre a
(1979) Theory of International Politics,
consolidação de um poder material dos Estados (militar e econômico) e
New York, McGraw-Hill.
sobre a delimitação e perseguição dos interesses desses em um ambiente
anárquico (SELBY, 2007, p. 331). Este tipo de leitura certamente não está
de todo incorreta. Contudo, não deixa de ser incompleta, uma vez que é
completamente cega à uma parte significativa da realidade internacional.
Uma problematização a partir de uma leitura foucaultiana permite
uma compreensão mais adequada, e consequentemente mais curada, da
realidade internacional pois entende o poder, e a sua operacionalização
na política internacional, de um modo mais alargado. Em contrapartida,
para Foucault “o poder não deve ser conhecido como algo detido por uma
classe (os dominantes) que o teria conquistado”, uma vez que esse tipo
de entendimento conduz a conclusão de que “as relações de poder presu-
mem um enfrentamento perpétuo” (MAIA, 1995, p. 87). Foucault, por sua
vez, se opõe às concepções de que o poder se constitui na capacidade que
determinado agente possui para mobilizar e aglutinar forças - sejam elas
econômicas, sociais ou políticas - para obter um resultado esperado em
detrimento da liberdade de escolha do outro (BLACKBURN, 1997, p. 301).
Esse tipo de visão tem o poder como algo negativo e repressivo, com-
preendendo-o essencialmente como uma ação que proíbe, censura, re-
preende e coage os indivíduos (MAIA, 1995, p. 85). Foucault, por sua vez,
deixa de lado essa hipótese repressiva do poder (POGREBINSCHI, 2004,
p.186). Em consequência disso, dentro do enquadramento foucaultiano, o
poder não deve ser entendido apenas como uma força que proíbe, repri-
me e coage os indivíduos. Muito pelo contrário, a definição foucaultiana
entende que “o que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é
simplesmente que ele não pesa só como a força que diz não, mas que de
fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber e produz
discurso” (FOUCAULT, 1979, p. 8). O exercício do poder acaba então por
40
Natali Hoff, Ramon Blanco Abrindo a caixa de ferramentas foucaultana: delineando a governamentalidade
global enquanto instrumento analítco das Relações Internacionais
se converter em uma força necessária, produtiva e constitutiva na socie-
dade (FOUCAULT, 1975, p. 161). De forma mais específica, Foucault “pro-
blematiza o poder como um relacionamento onde um tenta produzir, di-
recionar ou determinar os comportamentos de outros” (BLANCO, 2017,
p.90). Para Foucault o poder não se configura em um atributo unicamente
material, mas apresenta-se em termos de relação (DELEUZE, 2006, p. 27).
Essa preocupação a respeito de como se dá exercício do poder, leva
ao desenvolvimento da concepção foucaultiana de tecnologia de poder
como a forma de se apreender as relações cotidianas por meio das quais
o poder é exercido (FOUCAULT, 1980, p. 122). Nesse sentido, o termo
“tecnologia” configura-se mais como uma expressão, do que como um
conceito propriamente dito (BLANCO, 2013, p. 53). Diferentemente da
compreensão mais comum de tecnologia, na abordagem foucaultiana, se
refere a diferentes formas de conhecimento vinculadas a uma variedade
de dispositivos mecânicos e a uma variedade de pequenas técnicas orien-
tadas para produzir resultados práticos (ROSE, 2004, p. 52). As tecnologias
de poder, então, seriam responsáveis por conectar diversos tipos de co-
nhecimentos, capacidades e métodos de julgamento, direcionando-os ao
cumprimento de fins específicos (FOUCAULT, 1980, p. 122). Logo, as tec-
nologias de poder são aquelas tecnologias que buscam a formação de con-
dutas, objetivando, em última análise, produzir efeitos desejados e evitar
efeitos indesejados (BLANCO, 2013, p. 52). É importante destacar que as
tecnologias de poder não são socialmente ou politicamente neutras, uma
vez que alteram profundamente o ordenamento das coisas (KELLY, 2009,
p. 44), uma vez que operam de modo a produzir modificações no compor-
tamento e na disposição das coisas em uma sociedade. Para Foucault (1987,
9. A disciplina é uma tecnologia de po-
p. 111) a disciplina9, a biopolítica10 e o governo são tecnologias de poder
der exercida diretamente sobre os indi-
utilizadas na modernidade para moldar e conduzir os comportamentos
víduos e é caracterizada por estabelecer
dos indivíduos de acordo com os fins esperados. Essas três tecnologias de
um sistema de recompensas e punições,
buscando corrigir os comportamentos
poder, visualizadas por Foucault, não substituem umas às outras. Muito
daqueles indivíduos percebidos como
pelo contrário, elas operam em diferentes níveis e escalas e são operadas
desviantes. Nesse sentido, Foucault
através de diferentes instrumentos (BLANCO, 2013, p. 55).
diz que podemos chamar de disciplina
aos “métodos que permitem o controle
Tendo em contato a vasta obra desenvolvida por Michel Foucault
minucioso das operações do corpo, que
ao longo de sua vida, esse artigo dará centralidade à compreensão de uma
realizam a sujeição constante de suas
tecnologia de poder específica - o governo - em decorrência da sua im-
forças e lhes impõem uma relação de
docilidade-utilidade” (FOUCAULT, 1987,
portância para o entendimento acerca da noção de governamentalidade.
p. 25).
Para Foucault, a ideia de governo não está, somente relacionada com a
gestão formal do Estado, ou mesmo, com a soberania de um corpo terri-
10. A biopolítica é uma política que
torial que reclama o monopólio da força (DEAN, 2010, p. 16). Pelo contrá-
trata da gestão do processo da vida dos
indivíduos que compõem a população.
rio, Foucault compreende o governo como a “conduta da conduta” (FOU-
Essencialmente, a biopolítica objetiva
CAULT, 2008, p. 257). Assim, o entendimento de governo foucaultiano
a regulação e a administração da
população, buscando moldar e orientar
explora os dois sentidos da palavra conduta. Dentro dessa concepção,
as condutas dos indivíduos que fazem
conduta é, por um lado, entendida a partir do significado do verbo condu-
parte da população (FOUCAULT, 2008,
zir, indicando a ideia de guiar ou dirigir. Por outro lado, o termo também
p.327). A biopolítica, se preocupa com a
“gestão dos fenômenos que caracteri-
é entendido a partir do substantivo conduta, referindo-se às ações e aos
zam os grupos de seres humanos vivos”
comportamentos humanos (FOUCAULT, 2008, p. 258). Por conseguin-
(BLANCO, 2017, p.93).
te, o governo como “conduta da conduta” implica em qualquer tentativa
deliberada de moldar os comportamentos dos indivíduos de acordo com
conjuntos particulares de normas e para uma variedade de fins” (DEAN,
41
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 2, (jul. 2021), p. 34-56
2010, p. 18). Ele engloba, portanto, um número significativo de agentes
e fatores que vão muito além da esfera formal do Estado, envolvendo as
relações e interações nas famílias, nas empresas, nas escolas e em outras
instituições sociais (LEMKE, 2002, p.191).
Dessa maneira, não é nenhuma surpresa que as temáticas e abor-
dagens mais dominantes nas RI sejam de algum modo dissonantes
das preocupações contidas no arcabouço analítico foucaultiano (HUT-
CHINGS, 1997, p. 102). Mais do que isso, a própria política internacional
acaba por não ser um dos fenômenos mais recorrentemente abordados
e problematizados na obra foucaultiana11. Todavia, como Foucault se
11. Para mais acerca das problemati-
zações de Foucault acerca da política
dedicou a entender os instrumentos de poder presentes nas sociedades
internacional, ver (DEAN, 2010, Capítulo
contemporâneas, bem como as suas relações com as racionalidades e as
10).
práticas liberais (SELBY, 2007, p. 331), é bastante possível se apoiar em sua
obra para refletir sobre as relações de poder presentes no cenário inter-
nacional. Essa, inclusive, era a intenção do mesmo ao mencionar que sua
reflexão teórica e conceitual deveria ser apropriada por pesquisadoras de
áreas distintas. Isso acontece porque a conceitualização contida na obra
de Foucault pode ser entendida como uma “caixa de ferramentas” (FOU-
CAULT, 1994, p. 523-524). Nesse mesmo sentido, Foucault defende que os
seus livros e, principalmente, os seus conceitos sejam considerados e uti-
lizados como essa caixa de ferramentas, a partir da qual pesquisadores de
diferentes áreas do conhecimento possam se apropriar dos seus conceitos
e instrumentos de análise para compreender diversos fenômenos da vida
social (NEAL, 2009, p. 162).
Nesse sentido, é notório que o pensamento de Foucault acaba por
oferecer uma série de instrumentos analíticos e metodológicos que pos-
sibilitam a visualização e a problematização das relações de poder e das
práticas sócio-política na atualidade. Consequentemente, o pensamento
do mesmo acaba sendo operacionalizado por teóricos e analistas inter-
nacionais para a investigação de fenômenos e problemáticas distintas.
Em essência, os conceitos e as técnicas de análises foucaultianos acabam
sendo reapropriados por abordagens das Relações Internacionais com o
objetivo de explicar e compreender uma ampla diversidade de questões
e problemas relacionados com as práticas cotidianas de poder no espaço
internacional. É possível observar que o referencial foucaultiano nas Rela-
ções Internacionais está mais frequentemente associado a três propósitos
analíticos principais (SELBY, 2007, p. 326-335). O primeiro propósito analí-
tico constitui-se no desenvolvimento de uma abordagem crítica às teorias
dominantes da área, promovendo a desconstrução dos pressupostos teó-
ricos e conceituais do mainstream da disciplina. As críticas se direcionam
com maior frequência à corrente realista e à sua ontologia estadocêntrica
e utilitarista para as relações internacionais (SELBY, 2007, p. 227). Nes-
se enquadramento, questionam-se os processos de significação e sujeição
que compõem a construção narrativa dos conceitos fundacionais da área -
como o Estado, a soberania e o sistema internacional - e a sua relação com
a ordenação do mundo material (ASHLEY, 1990, p. 386; BARTELSON,
1995, p. 8; GEORGE, 1994, p. 191; WALKER, 1993, p. 23). Por conseguinte,
o principal objetivo é evidenciar como a visão realista estadocêntrica aca-
ba por condicionar práticas e estruturas centralizadas na figura do Estado
42
Natali Hoff, Ramon Blanco Abrindo a caixa de ferramentas foucaultana: delineando a governamentalidade
global enquanto instrumento analítco das Relações Internacionais
e das suas necessidades na política internacional (WEBER, 1995, p. 123).
O segundo propósito analítico, por sua vez, concentra-se na elaboração
de análises e conceitos sobre os discursos e sobre as práticas políticas pre-
sentes no meio internacional - dentro desse enquadramento, a noção de
governamentalidade ocupa um papel central ao possibilitar a análise so-
bre a conformação de técnicas de governamento no espaço internacional.
O terceiro propósito analítico recorrentemente associado ao pensamento
foucaultiano envolve a criação de novos instrumentos e técnicas de aná-
lise para se compreender a ordem liberal global contemporânea. Esses
propósitos evidenciam que o arcabouço foucaultiano é empregado não
apenas para se questionar e se problematizar o referencial teórico domi-
nante nas Relações Internacionais, como também para estimular novas
formas de se pensar e analisar criticamente os fenômenos internacionais.
Nessa seção delineou-se algumas das contribuições do referen-
cial foucaultiano para as reflexões sobre o espaço internacional. Pode-se
observar que as ideias de Foucault são importantes para a ascensão de
perspectivas críticas e questionadoras, tanto sobre os fenômenos interna-
cionais, como também sobre a produção teórica na área. As concepções
de Foucault a respeito do poder, do biopoder e das tecnologias de poder
acabaram por se converter em importantes instrumentos analíticos para a
problematização das relações internacionais, uma vez que incentivam que
a esfera internacional seja compreendida e problematizada como um do-
mínio composto por práticas e estratégias políticas compartilhadas pelos
diversos agentes que o compõem. Tais prática e estratégias estão intrinse-
camente vinculadas aos conhecimentos e às narrativas sobre o modus ope-
randi adequado na política internacional. Por conseguinte, não é nenhum
exagero afirmar que o potencial da aplicação do pensamento foucaultiano
às Relações Internacionais esteja na intersecção estabelecida entre poder
e conhecimento na obra do mesmo. Assim, mais do que possibilitar análi-
ses críticas sobre os pressupostos dominantes das Relações Internacionais,
os conceitos foucaultianos permitem investigar sobre como as práticas es-
tabelecidas na esfera internacional se configuram e se sustentam a partir
dos quadros discursivos e teóricos presentes nesse espaço.
A governamentalidade global: da episteme às práticas de governo em
âmbito internacional
Tendo em conta as potencialidades do conceito de governamenta-
lidade para o estudo das relações internacionais, nessa seção apresentare-
mos como a noção de governamentalidade global colabora para a análise
da política internacional. Desse modo, objetiva-se, incialmente, responder
ao questionamento sobre o que significa a noção de governamentalidade
e por qual razão esse conceito passou a ganhar centralidade nas ciências
sociais, de forma geral, e nas Relações Internacionais, especificamente.
Por conseguinte, mesmo com o desenvolvimento tardio dentro da obra
foucaultiana, que se deu somente a partir das suas Palestras no Collège de
France entre os anos de 1975 a 1979, o conceito de governamentalidade
ganhou considerável força como uma ferramenta analítica para explorar
criticamente técnicas de governo dentro e fora do Estado (ZANOTTI,
43
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 2, (jul. 2021), p. 34-56
2013, p. 237). Uma parte significativa do potencial analítico da noção de
governamentalidade, sobretudo quando se trata da análise das relações
internacionais, reside no fato de que a governamentalidade possibilita
uma problematização mais profunda e alargada do exercício do poder, e
da racionalização desse exercício, para além do Estado (MILLER; ROSE,
1992, p. 2; ZANOTTI, 2013, p. 237). Uma vez que para o Foucault não seria
possível estudar as tecnologias do poder sem uma análise das racionali-
dades políticas que as moldam e sustentam, o termo governamentalidade
busca, mais precisamente, dar visibilidade, por meio da ligação semântica
entre as palavras governo e mentalidade, aos modos de pensamento e
racionalidades envolvidas no exercício do governo (GORDON, 1991, p.
1). Dessa forma, a noção de governamentalidade, quando aplicada às rela-
ções internacionais, permite que a pesquisadora questione, por uma lado,
como se conformam os centros de produção conhecimento na esfera in-
ternacional, e por outro lado, como esse conhecimento termina por mo-
dificar e conduzir as condutas dos mais diferentes atores internacionais.
Esse tipo de problematização é possível, porque o governo, dentro
desse enquadramento, é entendido como uma tentativa de moldar e con-
duzir os comportamentos dos indivíduos de acordo com fins específicos.
A governamentalidade, por sua vez, diz respeito aos elementos racionais
que compõem o governo, ou seja, se refere àquilo que pode ser conheci-
do sobre o governo. Desse modo, é a da noção de governamentalidade
que se pode estudar a formação das práticas organizadas de pensamento
por meio das quais se governa e se é governado (DEAN, 2010, p.28). Des-
se modo, a governamentalidade é empregada por como uma ferramen-
ta analítica destinada a estudar as transformações que possibilitaram as
modalidades contemporâneas do governo à distância (ZANOTTI, 2013,
p. 238). Mais precisamente, Michel Foucault define, em sua obra, gover-
namentalidade como:
[...] um conjunto formado por instituições, procedimentos, análises e reflexões,
cálculos e táticas que permitem o exercício desse poder específico, mas comple-
xo, que tem a população como seu alvo, a economia política como sua forma de
conhecimento e o aparato de segurança como seu instrumento técnico essencial
(FOUCAULT, 2007, p. 108).
Por esse ângulo, a problematização deve estar preocupada com os
meios de cálculo que possibilitam o exercício do governo, o tipo de auto-
ridade que se consolida e com as formas de conhecimento envolvidas em
todo esse processo (GORDON, 1991, p. 10). Assim, ao transpor esse con-
ceito para as Relações Internacionais, é preciso problematizar os meca-
nismos e racionalidades que possibilitam a operacionalização do governo
no âmbito da política internacional. Isso é possível porque a ideia contida
no conceito de governamentalidade permite a investigação sobre as prá-
ticas utilizadas para se governar, concomitantemente à observação das
racionalidades políticas que tornam possível se governar de tal maneira
(JOSEPH, 2010, p. 243). Consequentemente, a ideia de governamentalida-
de, nesse sentido, não é apenas sobre como as instituições se comportam,
mas também sobre como se consolidam as práticas discursivas que dão
forma e tornam o governo viável (LEMKE, 2007, p. 47). Dessa maneira, a
governamentalidade vai além da análise do exercício direto do poder es-
44
Natali Hoff, Ramon Blanco Abrindo a caixa de ferramentas foucaultana: delineando a governamentalidade
global enquanto instrumento analítco das Relações Internacionais
tatal, buscando observar como as sociedades (e os próprios Estados) pro-
duzem métodos mais sutis de poder, que são exercidos por meio de uma
rede de instituições, práticas, procedimentos, técnicas e racionalidades
que atuam para regular a conduta social, inclusive no âmbito das relações
internacionais. Essa potencialidade analítica da governamentalidade é a
que concede o seu caráter inovador e crítico para a análise das relações
internacionais, uma vez que objetos tradicionais da disciplina, como a
atuação do Estado e o funcionamento das redes de governança interna-
cionais, podem ser analisados em conjunto com elementos mais subjeti-
vos, tal qual as ideias, o conhecimento e os discursos. Em decorrência, é
possível visualizar relações de poder mais sutis e, geralmente, traduzidas
em termos de condicionalidade, identidade e aprendizado coletivo.
Todavia, ao se pensar sobre a governamentalidade, especialmen-
te na esfera internacional, questiona-se sobre como é possível apreender
essas relações mais sutis de poder. Certamente, esse não é um caminho
analítico simples e demanda dos pesquisadores uma observação cuidado-
sa sobre os aspectos ideacionais, discursivos e práticos da política inter-
nacional. Com o objetivo de sistematizar o estudo sobre a governamen-
talidade, Mitchell Dean (2010, p. 30) afirma que é preciso partir de uma
analítica12 do governo, uma vez que esse tipo de análise busca examinar
12. Uma “analítica” é um tipo de estudo
que está preocupado com as condi-
não apenas o modo por meio do qual as coisas são feitas, como também
ções específicas a partir das quais os
quais as formas de raciocínio envolvidos. Em função disso, percebe-se
fenômenos surgem, se consolidam e se
modificam (DEAN, 2010, p. 33)
que a analítica de governo examina, essencialmente, a modo por meio
do qual os regimes de práticas surgem e se consolidam. Os regimes de
práticas são entendidos como conjuntos, mais ou menos organizados, for-
mados por modos de se fazer as coisas (DEAN, 2010, p. 31). Assim, quando
se fala em regimes de práticas, por um lado, refere-se aos modos de fazer
as coisas em uma sociedade e, por outro lado, inclui-se as diferentes men-
talidades vinculadas ao exercício dessas práticas, tornando-os objeto do
conhecimento e sujeitando-os a problematizações. Por conseguinte, para
Dean (2010, p. 32), há uma dependência entre os regimes de práticas e a
consolidação de conhecimentos e cálculos específicos sobre o governo.
Partindo da analítica de governo proposta por Dean, observa-se que
uma análise sobre a governamentalidade, em especial em âmbito global,
demanda que cinco dimensões que são, por um lado relativamente autô-
nomas, e por outro, condicionantes uma das outras, sejam consideradas
(BLANCO, 2012, 2020; DEAN, 2010, p. 33). Essas dimensões são: visibi-
lidades/percepções, técnicas/práticas, conhecimentos, identificações e a
atuação dos especialistas (BLANCO, 2013, p. 68). A primeira dimensão
diz respeito aos elementos ao quais são dados visibilidade em um con-
junto específico de práticas. Logo, quando se fala em um conjunto de
elementos visíveis, torna-se inevitável indagar sobre quais os propósitos
de se iluminar um determinado conjunto de práticas e verdades estabele-
cidas em uma ordem social particular (DEAN, 2010, p. 41). Para ser mais
preciso, a dimensão da visibilidade indica a necessidade de analisar como
quem e o que estão sendo governados são tornados visíveis (BLANCO,
2013, p. 68). Isso pode incluir, por exemplo, desenhos arquitetônicos, flu-
xogramas, mapas, gráficos e estatísticas. A segunda dimensão refere-se
aos aspectos técnicos do governo utilizados para realizar a modelagem
45
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 2, (jul. 2021), p. 34-56
e o direcionamento das condutas. Essa dimensão, então, foca nas táti-
cas, mecanismos, procedimentos e vocabulários por meios dos quais a
autoridade é constituída em uma sociedade (DEAN, 2010, p. 42). A ter-
ceira dimensão constitui-se na “episteme do governo” e está relacionada
com as formas de conhecimento que sustentam e informam a atividade
de governar. Ela abrange os meios de cálculo, as teorias e conceitos que
dão sustentação a dado regime de prática (DEAN, 2010, p. 44). Por fim, a
quarta e última dimensão alude às identidades, coletivas ou individuais,
por meio das quais o governo opera e a que práticas e programas de go-
verno tentam formar (DEAN, 2010, p. 43). Essa dimensão abriga os ques-
tionamentos sobre qual o tipo de conduta que se espera moldar e quais
os objetivos com essas modificações. Ramon Blanco (2020, p.17) adiciona
uma quinta dimensão que deve ser considerada em uma analítica de go-
verno, sobretudo no que tange as análises sobre os regimes de práticas
internacionais, o papel dos especialistas ou peritos. Para Blanco (2020),
os especialistas ou peritos ocupam uma posição privilegiada para guiar
e orientar as condutas e, consequentemente, as práticas de governo na
política internacional.
Nesse sentido, a governamentalidade ao conduzir a pesquisadora
a questionar quem governa, o que se governa e quem é governado, e
os modos de se pensar, calcular e operacionalizar este governo, desna-
turaliza as racionalidades políticas que sustentam e moldam a política
internacional. Isso ocorre porque, Foucault (1991, p.102) entende que com
a governamentalidade podem-se identificar racionalizações políticas es-
pecíficas, emergindo em locais precisos e em momentos históricos espe-
cíficos, sendo sustentadas por sistemas de pensamento coerentes e siste-
máticos (ROSE, 2004, p. 24), e determinadas racionalidades. Mas afinal, o
que vem a ser uma racionalidade política e como a sua identificação pode
fomentar uma compreensão mais alargada da política internacional? Res-
pondendo a primeira parte da pergunta, destaca-se que, dentro de um
enquadramento foucaultiano, racionalidade é qualquer tipo de raciocínio
ou jeito de se pensar, calcular e responder a um problema que é mais ou
menos sistemático e que acaba por dar forma a corpos formais de conhe-
cimento e expertise (ROSE, 2004, p. 24). Nesse sentido, as racionalidades
políticas possuem um caráter epistemológico e são articuladas em vias
de compreender as instâncias sociais a serem governadas (ROSE, 2004, p.
26). Para responder a segunda parte da pergunta, é preciso destacar que o
espaço internacional, assim como o doméstico, é moldado de acordo com
o surgimento e a consolidação de racionalidades políticas específicas. Es-
sas racionalidades influenciam e determinam, não apenas as estruturas
de poder no cenário internacional, como a conduta dos atores. Assim, a
análise sobre como as racionalidades políticas produzem efeitos práticos
nas relações internacionais torna possível a visualização e a problemati-
zação de uma governamentalidade global.
Antes de se avançar no delineamento mais aprofundado acerca da
noção de governamentalidade global, é importante distingui-la de um
termo muitas vezes utilizado, erroneamente, enquanto seu sinônimo
- governança global. A governança pode ser definida como “atividades
apoiadas em objetivos comuns, que podem ou não derivar de responsa-
46
Natali Hoff, Ramon Blanco Abrindo a caixa de ferramentas foucaultana: delineando a governamentalidade
global enquanto instrumento analítco das Relações Internacionais
bilidades legais e formalmente prescritas e não dependem, necessaria-
mente, do poder de polícia para que sejam aceitas e vençam resistências”
(ROSENAU, 2000, p. 15). Assim, a ideia de governança pode direcionar a
reflexão ao pensar sobre o processo contínuo por meio do qual conflitos,
divergências e interesses comuns são acomodados em redes de governan-
ça. Isso inclui instituições formais e regimes fortalecidos para fazer valer
compromissos, assim como arranjos governativos informais direciona-
dos a assuntos específicos (COMISSION ON GLOBAL GOVERNANCE,
1995, p.4). Por conseguinte, a governança global assume as práticas e ra-
cionalidades dominantes no espaço internacional como um dado adqui-
rido, se direcionando apenas a compreender o seu funcionamento e sem
necessariamente questionar as estruturas de poder subjacentes ao mesmo.
Diferentemente, a noção de governamentalidade conduz a pesquisadora
a problematizar como as racionalidades de governo estão diretamente
conectadas com as práticas políticas internacionais. Assim, a pensar sobre
uma governamentalidade global é, justamente, desnaturalizar as redes e
as normas de governança que são a marca de um tempo específico.
A operacionalização da noção de governamentalidade para a aná-
lise da política internacional, ao contrário da ideia de governança, per-
mite que esta seja estudada como um domínio essencialmente social,
composto por práticas e racionalidades políticas orientadas para objetivos
específicos (NEUMANN; SENDING; 2006, p. 678). Consequentemente,
a compreensão da organização da política internacional, perpassa pela
observação das mentalidades, das práticas e dos mecanismos ordenadores
que a compõem e incidem sobre os seus atores. Assim, para compreender
como a governamentalidade é operada na política internacional, é ne-
cessário que se faça um delineamento detalhado dos diversos processos,
procedimentos, relações, conhecimentos e normas identificados com o
governo, observando quando e como eles se transformam em práticas
estáveis, replicáveis e até mesmo institucionalizadas (NEUMANN; SEN-
DING, 2006, p. 678). A partir disso é possível problematizar os conjun-
tos de racionalizações, teorizações e conhecimento técnicos ligados aos
meios estabelecidos para moldar e reformular as condutas, as práticas e
as instituições presentes na política internacional (ROSE, 2004, p. 20).
Dessa forma, Wendy Larner e William Walters (2004, p. 2) se referem à
governamentalidade global não apenas para um fenômeno do nosso tem-
po, mas sobretudo, como denominação para o conjunto de estudos que
problematiza a constituição de uma governança dos espaços localizados
acima, através e além do Estado. A governamentalidade global abarca,
então, as contribuições analíticas preocupadas em dar inteligibilidade ao
governo de domínios que possuem um caráter internacional, como, por
exemplo, o controle dos fluxos de migração internacionais ou a formação
de entidades como a União Europeia (DEAN, 2010, p. 229).
Dentro das diferentes problematizações acerca da governamenta-
lidade global, é importante perceber o destaque dado ao neoliberalismo
possui dentro das mesmas. Isso ocorre porque o neoliberalismo é visto
como uma maneira particular de construir a vida social através da in-
trodução da economia política nas práticas sociais e políticas (JOSEPH,
2010, p. 32), sobretudo no âmbito do cenário internacional contemporâ-
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 2, (jul. 2021), p. 34-56
neo. Isso significa que o neoliberalismo é entendido enquanto uma forma
de regulação social que introduz uma racionalidade particular derivada
do empreendimento individual e uma crença de que as coisas funcionam
melhor quando a governança encoraja a livre conduta (JOSEPH, 2010,
p. 32). Isto decorre do entendimento de que o liberalismo não deve ser
entendido como uma ideologia ou como uma maneira por meio da qual
a sociedade ‘representa a si mesma’, mas como uma prática, uma maneira
de se ‘fazer as coisas’ (FOUCAULT, 2008, p. 318) - uma racionalidade de
governo. Nesse sentido, analisar a política internacional a partir da gover-
namentalidade implica em compreendê-la como uma estrutura (definida
por relações de poder) que gera práticas distintas e cambiáveis de domí-
nio político (definido como racionalidade governamental) (NEUMANN;
SENDING, 2007, p. 700). Assim, a governamentalidade pode nos ajudar
a entender como a política internacional funciona, ao iluminar como di-
ferentes racionalidades políticas são definidas por certas regras, práticas
e técnicas, e como tais racionalidades geram orientações de ação e com-
portamento de atores específicos (NEUMANN; SENDING, 2007, p. 668)
Nesse contexto, relativamente ao cenário internacional atual, seria
possível perceber a densa rede de normas e regras neoliberais buscan-
do conduzir os comportamentos não apenas dos Estados, mas de outras
organizações políticas - como ONGs, por exemplo - e também dos in-
divíduos (JOSEPH, 2010, p. 233). Esse tipo de concepção permite perce-
ber a política internacional na qual as instituições e os países do centro
do sistema internacional buscam moldar o comportamento de países da
periferia do mesmo. Essa disposição do poder pode ser observada, por
exemplo, por meio da postura adotada por organizações como o Banco
Mundial e o FMI buscando por conduzir a conduta de países periféricos
segundo determinados parâmetros condizentes à governamentalidade
global. Dentre estes, pode-se citar, por exemplo: (1) a ênfase à necessidade
de implementação, por parte dos países receptores de suas práticas, de
políticas de privatização; (2) a abertura dos mercados à livre concorrência;
e (3) a redução de envolvimento direto do Estado nos processos econômi-
cos; para mencionar apenas alguns (JOSEPH, 2010, p. 133). Laura Zanotti
(2005, p. 480) compreende essa dinâmica como uma governamentalidade
operacionalizada a partir ideia de “boa governança” que busca conduzir a
conduta de um Estado tanto no âmbito da política internacional, como no
âmbito doméstico do mesmo. Tendo isso em conta, é possível perceber o
como o governo, entendido enquanto conduta da conduta, é racionaliza-
do na esfera internacional (JOSEPH, 2010, p. 133).
A discussão entorno da ideia de “boa governança” é central para
compreender os arranjos e as práticas políticas internacionais dominantes
no cenário internacional desde o fim da Guerra Fria. O fim da disputa entre
as duas “visões de mundo” antagônicas, o socialismo da União Soviética
e o capitalismo dos Estados Unidos, fez emergir no cenário político inter-
nacional, do início dos anos 1990, uma espécie de “triunfalismo democrá-
tico-liberal”. Em tal contexto, Francis Fukuyama (1992, p. 13) escreve “O
Fim da História e o Último Homem”, no qual defende que a derrocada da
União Soviética representava o fim das disputas ideológicas e consolidava
a hegemonia dos modelos políticos e econômicos liberais. Nesse cenário
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Natali Hoff, Ramon Blanco Abrindo a caixa de ferramentas foucaultana: delineando a governamentalidade
global enquanto instrumento analítco das Relações Internacionais
de otimismo liberal, se fortalece entre analistas e polymakers das relações
internacionais a ideia de segurança, desenvolvimento e democracia são
conceitos indissociáveis (BLANCO, 2020; ZANOTTI, 2005). Assim, ob-
serva-se um movimento de migração dos discursos sobre os caminhos
possíveis para se alcançar a paz e o desenvolvimento dos fatores econômi-
cos e/ou da estrutura do sistema internacional para a qualidade das insti-
tuições estatais (ZANOTTI, 2005, p. 461). Esses discursos imediatamente
passaram a ter efeitos práticos, sobretudo na esfera de segurança interna-
cional. Os esforços de construção da paz que, durante a Guerra Fria, se
caracterizavam pela neutralidade dos interventores e pela preocupação
com o cessar fogo e com a assinatura dos acordos de paz; a partir dos anos
1990 convertem-se em um empreendimento mais alargado, direcionados
a reconstrução dos Estado nos moldes liberais. Por conseguinte, a paz,
nesse cenário, é percebida como produto das instituições democráticas e
liberais. Ramon Blanco (2017) aponta que essas intervenções, em última
instância, convertem-se em tentativas de normalização dos Estados pós-
-conflitos. Elas podem ser consideradas como processos de normalização
já que modificam as estruturas do Estado e a sua relação com a sua popu-
lação, com o objetivo de transformá-los em algo mais parecido com o que
se entende por normal - as democracias liberais13.
13. Caso tenha interesse em compreen-
der de forma mais aprofundada como os
Tendo em conta a discussão acima, Mark Duffield (2005, p. 2) pro-
processos de reconstrução de Estados
blematiza a centralidade da racionalidade política liberal14 para as práticas
podem ser compreendidos como tentati-
vas de normalização, ler: Blanco, 2020.
internacionais de construção da paz. Para Duffield, atualmente é crescen-
te a percepção de que situações que antes eram consideradas problemas
14. O liberalismo, dentro de uma abor-
internos dos países - como os conflitos civis, o crescimento acelerado da
dagem foucaultiana deve ser entendido
população urbana acompanhado do aumento da pobreza e da desigualda-
como uma prática, uma maneira de se
de e o aumento da violência em situações de não guerra - agora se cons-
‘fazer as coisas’ (FOUCAULT, 2008, p.
318) - uma racionalidade de governo.
tituem em ameaças à estabilidade internacional (DUFFIELD, 2005, p. 3).
Dentro dessa conjuntura, a promoção da segurança no mundo engloba
a criação de mecanismos que incidem sobre os mais diversos aspectos
da vida social e política dos Estados, como a natalidade da população, a
expectativa de vida em um local, a mobilidade interna e internacional,
a desigualdade entre classes, gêneros e raças, o nível de escolaridade de
uma população e o combate ao crime e à violência. Em consequência, a
segurança transforma-se em uma problemática liberal (DUFFIELD, 2005,
p. 4) e fazer parte de uma governamentalidade que não está mais apenas
restrita a países em ou pós-conflito.
A segurança enquanto um problema de ordem liberal tende a am-
pliar as formas de intervenção internacionais para a construção da paz
e para garantia da segurança, bem como as localidades passíveis dessas
intervenções e os instrumentos utilizados nesses processos. A ideia de
boa governança se torna central por permitir que o governo internacio-
nal possa operar tanto diretamente, como a distância através de meca-
nismos indiretos de poder e técnicas de governo mais sutis. Destaca-se
aqui que, para Foucault (2008, p. 63), a “liberdade não é outra coisa [...]
do que a relação entre governantes e governados”. Desse modo, a grande
diferenciação das formas liberais de governo é que “elas substituíram as
regulamentações externas pelas produções internas”, de modo que fun-
ção primordial do liberalismo é promover as condições nas quais os indi-
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víduos podem exercer essa liberdade (LEMKE, 2014, p. 111). Assim, se por
um lado, o governo liberal consome a liberdade que ele mesmo produz,
por outro lado, o liberalismo é responsável por em perigo essa liberdade
(LEMKE, 2014, p. 112). Em consequência, o liberalismo produz liberdades
que são permanentemente ameaçadas (LEMKE, 2014, p. 113). Para Fou-
cault, esse paradoxo, revela que para que a liberdade liberal possa existir,
ela precisará sempre da intervenção de um poder “estabilizador” e “prote-
tor” (FOUCAULT, 2008, p. 64). Por conseguinte, ao se dedicar uma leitura
mais atenta à governamentalidade liberal, pode-se observar que ela, ine-
vitavelmente, produzira dispositivos de governo destinados a controlar -
ainda que a distância - a conduta dos atores interna e internacionalmente.
Laura Zanotti (2013) destaca que existem duas vertentes de pes-
quisas na área das Relações Internacionais direcionadas a problemati-
zar como a governamentalidade impacta as dinâmicas internacionais. A
primeira vertente utiliza o conceito de governamentalidade como uma
ferramenta crítica, focando essencialmente na trajetória do liberalismo
global. Essa vertente objetiva compreender como a expertise neoliberal
se conforma em uma ferramenta de ampla eficácia no que tange a busca
pela modificação dos processos relacionados à vida dos indivíduos (biopo-
lítica) (ZANOTTI, 2013, p. 3). Em última instância, problematizam como
as ferramentas biopolíticas e a própria violência se juntam para servir
as classes dominantes ou as agendas políticas dos Estados (AGAMBEN,
1998; DUFFIELD, 2005; HARDT; NEGRI, 2000; MBEMBE, 2001; PRO-
ZOROV, 2007). Essa concepção é adotada como um instrumento que
permite teorizar sobre as características globalmente opressivas do libe-
ralismo internacional. Para a segunda vertente delineada por Zanotti,
a governamentalidade se configura em uma ferramenta descritiva que
possibilita explorar as modalidades do governo local e internacional (ZA-
NOTTI, 2013, p. 2). Por conseguinte, tais análises focam nos efeitos da
governamentalidade e nos contextos onde ela é operacionalizada. Essas
pesquisas objetivam, principalmente, a compreensão e a análise sobre as
práticas de governo e sobre as formas de resistência advindas dessas prá-
ticas (BIGO, 2002, 2011; JOSEPH, 2009, 2010; LIPSCHUTZ; ROWE, 2005;
LOWENHEIM, 2007; MERLINGEN, 2006; WALTERS, 2012;).
Para Zanotti (2013, p. 3-4) a distinção entre essas duas abordagens
da governamentalidade é central para refletir e debater sobre a ação po-
lítica na esfera internacional. A primeira perspectiva, por mais que apre-
sente uma crítica importante ao neoliberalismo acaba, segundo Zanotti,
privilegiando teorizações abstratas e se afastando do principal foco da
governamentalidade - a problematização do exercício do governo em um
determinado espaço/tempo. Dessa maneira, esse tipo de análise reforça
uma conceitualização liberal de sujeitos e poder, determinada por uma
relação de dominação externa que impede que se reimagine a agência
política daqueles que são dominados. Isso não quer dizer que essas aná-
lises não se configuram em contribuições importantes, uma vez expõem
e problematizam o liberalismo como um quadro de dominação política
e social. Porém, não se rompe totalmente com uma concepção do po-
der como um elemento essencialmente repressivo e da agência política
como a busca pela liberação de sujeitos oprimidos. Nesse sentido, a se-
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Natali Hoff, Ramon Blanco Abrindo a caixa de ferramentas foucaultana: delineando a governamentalidade
global enquanto instrumento analítco das Relações Internacionais
gunda abordagem acaba por complementar a análise da governamenta-
lidade em âmbito global, por um lado, trazendo para o centro do debate
a preocupação sobre como se dá a operacionalização de estratégias de
governo neoliberais e, por outro lado, destacando quais são os seus efei-
tos práticos nos contextos onde são aplicadas essas estratégias. Procura-se
vislumbrar como a aplicação das normas de conduta advindas da ordem
internacional neoliberal engendram movimentos de resistência, assimila-
ção e transformação em ambientes que não são totalmente liberalizados
(JOSEPH, 2010, p. 262).
Diante disso, pode-se apreender que a governamentalidade global é
uma importante ferramenta analítica que permite compreender as técni-
cas utilizadas para moldar e até mesmo constranger a conduta dos atores
no âmbito internacional. A partir da análise das racionalidades políticas
pode-se compreender os quadros discursivos responsáveis por delimitar o
campo de atuação possível na arena internacional. Na atualidade, o neo-
liberalismo é a mentalidade que norteia e delineia os cálculos e as práti-
cas de governo. Todavia, uma investigação mais aprofundada sobre essas
práticas indica que, por mais que o neoliberalismo conceda substância à
governamentalidade global, as práticas de persecução dessas estratégias
ainda combinam mecanismos disciplinares e técnicas mais sutis de go-
verno - como a ajuda e a cooperação internacional.
Nesse sentido, o conceito de governamentalidade permite proble-
matizar, no cenário internacional, a existência de técnicas e práticas de
governo, que são operacionalizadas a partir de uma racionalidade política
inerente às relações de poder internacionais. Logo, a ideia de governa-
mentalidade global permite uma problematização mais qualificada das
complexidades e as nuances práticas e racionalidades políticas que coor-
denam o sistema internacional, sobretudo com relação à disposição de
uma ordem neoliberal (LIPSHUTZ, 2006, p. 13). É importante ressaltar
que trazer a ideia governamentalidade global para entender as dinâmi-
cas internacionais não implica em uma rejeição à soberania, mas sim,
em uma tentativa de pensar a instrumentalização do poder dentro e fora
dos Estados (JOSEPH, 2010, p. 225-226). Nesse sentido, a problematização
dessa realidade a partir da noção de governamentalidade permite, por
exemplo, observar e problematizar como no âmbito internacional uma
complexa combinação de diferentes Estados, sociedades civis e formas de
governo (JOSEPH, 2010, p. 234) atuam e interagem. Dessa forma, enten-
de-se que a governamentalidade não fica mais retida apenas no âmbito do
Estado e da sua sociedade, passando a se tornar um elemento importan-
te para o funcionamento da política internacional. A governamentalida-
de, portanto, passa a estar relacionada com a consolidação de padrões de
comportamento e interação e com a produção dos regimes de verdades
em âmbito internacional.
A utilização da noção de governamentalidade global permite, se-
guindo Larner e Walters (2002, p. 415), a problematizar, inclusive, sobre
diferentes tipos de governamentalidade, desde o imperialismo até a inte-
gração europeia. Dessa maneira, a ideia de governamentalidade global
não conduz essencialmente a conclusão de que existe apenas uma úni-
ca forma de governamentalidade na espera internacional. Pelo contrá-
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rio, pode-se observar o surgimento de racionalidades políticas distintas,
voltadas a necessidades especificas e localizadas em contextos e tempos
particulares. Esse tipo de análise possibilita que se observe como, por
exemplo, a governamentalidade do imperialismo acaba por incorporar
elementos autoritários, fomentando um governo internacional por meio
da disciplina e da sujeição dos agentes envolvidos às metrópoles capita-
listas. Enquanto, a governamentalidade do regionalismo engendra o go-
verno dos Estados e das populações a partir do consentimento ativo dos
mesmos (LARNER; WALTERS; 2002, p. 398). Dessa forma, quando se
pensa sobre a governamentalidade contida na integração europeia clara-
mente observa-se uma racionalidade neoliberal, permeada por uma con-
cepção descentralizada de poder e pelo governo à distância (LARNER;
WALTERS; 2002, p. 398).
Tendo em conta a discussão apresentada nesse artigo, percebe-
-se que a problematização da política internacional a partir da noção
de governamentalidade permite uma reflexão mais refinada acerca da
mesma, uma vez que possibilita a visualização da operacionalização do
poder por meios menos visíveis e mais indiretos; apesar desses meios
não serem menos invasivos e profundos. Assim, pode-se afirmar que
a governamentalidade global possibilita o estudo de como o governo,
como conduta da conduta, trabalha à distância, empregando novas téc-
nicas de observação, de cálculos e de administração para regular a es-
fera internacional (JOSEPH, 2009, p. 415). Consequentemente tal noção
é fundamental para melhor compreender as práticas e racionalidades
exercidas pelos agentes internacionais com o fim de buscar moldar o
campo de atuação de Estados e populações. Nesse mesmo sentido, a go-
vernamentalidade opera, orienta e constrói significações a respeito do
internacional a partir de centros de produção de conhecimento teórico,
técnico e econômicos sobre as dinâmicas relacionais dos atores inter-
nacionais. Assim, baseando-se no conhecimento e práticas de governo,
culmina-se no exercício de poder de modo a produzir normas de condu-
ta para os agentes internacionais.
Conclusão
No decorrer desse artigo pode-se observar que há uma série de es-
tudos que incorporam a noção de governamentalidade como uma for-
ma de compreender o domínio internacional a partir das múltiplas ra-
cionalidades e tecnologias de poder que incidem sobre, através e além
dos Estados. Dessa maneira, a governamentalidade global permite uma
melhor e mais refinada problematização das relações de poder presentes
no cenário internacional. Tal noção permite, sobretudo, evidenciar as ra-
cionalidades nas quais tais operacionalizações de poder se assentam. Isso
é possível porque o estudo da conformação de uma governamentalidade
global permite que se observe como o poder é exercido por meio de uma
rede de conhecimentos, instituições, práticas e procedimentos regulado-
res da conduta dos Estados e das suas populações. Consequentemente,
é possibilitada uma melhor compreensão de como as racionalidades po-
líticas acabam se conformando em regimes de práticas, que por sua vez
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Natali Hoff, Ramon Blanco Abrindo a caixa de ferramentas foucaultana: delineando a governamentalidade
global enquanto instrumento analítco das Relações Internacionais
desenham a forma de atuação do governo, entendido enquanto a conduta
de condutas. (DEAN, 2010, p. 23). Mais especificamente, a problematiza-
ção da política internacional a partir da noção de governamentalidade
global permite uma análise mais aprofundada e clara dos diferentes me-
canismos de poder e de governo que acabam por conformar no cenário
internacional regimes de práticas específicos que visam à conduta da con-
duta em âmbito global. Nesse sentido, a governamentalidade ilumina não
apenas o modo como as práticas e as instituições internacionais incide
sobre os Estados e as suas populações, como também destaca quais as
mentalidades de governo fundamentam tais práticas.
Pode-se observar que atualmente as relações internacionais, quan-
do analisadas a partir da ótica da governamentalidade, são constituídas
majoritariamente por regimes de práticas e quadros discursivos neoli-
berais. Essa característica, no entanto, constitui-se no resultado de pro-
cessos históricos, sociais e políticos que dão forma e substância às múlti-
plas técnicas e mecanismos governo. Isso porque, por meio de uma ana-
lítica de governo pode-se, por um lado, identificar como racionalidades
políticas específicas tornam-se centrais ao exercício do governo e, por
outro lado, visualizar quais quadros discursivos são obscurecidos por
essas racionalidades. Assim, a noção de governamentalidade, ao vincu-
lar as mentalidades com as práticas políticas, desnaturaliza a frequente
a associação entre as formas de governamento existentes no espaço in-
ternacional e a conformação de uma racionalidade política neoliberal
dominante. Por conseguinte, os estudos sobre a governamentalidade
global, em última instância, possibilitam que se problematize os mo-
dos por meios dos quais os regimes e as técnicas de governança atuais
surgiram, se consolidaram e passaram a normatizar condutas dentro da
política internacional.
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